Escrito por: Laura
en MyBlog en Jul 15, 2010
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Nosso 15º dia de atividades do programa de Jovens Líderes foi voltado principalmente para atividades ligadas ao mundo cultural-artístico, da gestão cultural às línguas e literatura, assim como das artes visuais às cinematográficas.
Real Academia Española
Começamos com uma visita no belo edifício da Real Academia Española, entidade que desde o século XVIII lida com a língua espanhola e seu desenvolvimento enquanto língua dinâmica. Nos recebeu seu diretor, Victor García de la Concha, um senhor que demonstrou muito conhecimento e também uma paixão grande pelo estudo das línguas.
O espanhol é a 2ª língua mais usada em comunicação internacional (depois do inglês) e também a 2ª mais falada como idioma materno (depois do chinês). Isso demonstra a importância e o potencial de difusão do idioma espanhol, que é acompanhado pelas culturas dos países dos quais provem.
A Academia, por sua vez, não cria regras e normas. Segundo seu diretor, os acadêmicos são responsáveis por observar e discutir a evolução da língua, e sancionar essa evolução de acordo com o poder que a Academia obteve historicamente pelo reconhecimento da sociedade.
Chamou-me a atenção a importância do espanhol dos países latinoamericanos, incorporados nas discussões assim como o castellano da península ibérica. Essa integração deveria ser um exemplo para os países de língua portuguesa, que só recentemente conseguiram estabelecer um acordo ortográfico. A Real Academia Española foi inclusive consultada pelos portugueses durante esse processo do acordo ortográfico, apesar de não existir ainda em Portugal uma instituição equivalente à espanhola (no Brasil temos a Academia Brasileira de Letras, reconhecida internacionalmente).
Quando perguntado pelo público sobre o efeito dos "anglicanismos" na língua espanhola, sr. Victor de la Concha não se mostrou preocupado com uma possível "invasão". Ele colocou esse movimento contemporâneo em perspectiva com o exemplo da influência da língua francesa, que já foi muito forte e hoje já está tão incorporada que faz parte do idioma.
A impressão ao final do colóquio foi de que poderíamos ficar mais um bom tempo na presença do sr. Victor, não só pela sua simpatia como pelo tanto que tínhamos que perguntar e compartilhar. Essa atividade destacou a diversidade linguística no nosso grupo de jovens, já que cada um vem de uma região diferente, mesmo que dentro do mesmo país. E esse tipo de diversidade foi defendido pelo diretor, que sugeriu como solução para o desaparecimento de idiomas e dialetos o bilinguismo. Dessa forma, as comunidades podem manter sua forma de se expressar e ao mesmo tempo ter um idioma com o qual podem se comunicar com o mundo e não se isolar em épocas de globalização.
Instituto Cervantes
Em seguida, fomos almoçar com a diretora do Instituto Cervantes, Carmen Caffarel, a primeira mulher a ocupar o cargo desde a criação do instituto há 19 anos.
Alguns dos temas tratados nesse almoço-colóquio dialogavam diretamente com o que conversamos com o diretor da Real Academia, e a complementação veio com uma visão ampliada para outras artes e para países não hispânicos.
O Instituto Cervantes promove a cultura dos países hispanohablantes e está presente em 78 cidades em 44 países, sendo uma importante instituição em termos de diálogo intercultural nos locais onde está instalada.
Sua diretora deixou claro que a função do Instituto não é produzir ou financiar produções culturais, mas incentivar e possibilitar a divulgação e difusão de obras ligadas à cultura hispânica. Um dos pontos destacados foi a importância das novas tecnologias, com destaque para as atividades desenvolvidas no site do Instituto. Esse evento do qual participamos, inclusive, foi transmitido online por esse portal.
Hoje a arte mais pungente nas atividades do Cervantes é o cinema, através da distribuição e exibição de filmes. Para outras linguagens, como a dança e o teatro, dependem da parceria com terceiros nos países em questão. E existem também as atividades educativas como cursos de espanhol presenciais e à distância (fonte de financiamento de parte da atividade de difusão artística) e também o estabelecimento de acordos como um sistema de certificados universitários entre países de lingua espanhola (para facilitar a mobilidade).
Museo del Prado
A jornada cultural continuou com uma visita ao Museo del Prado, um dos mais importantes da Espanha e do mundo. Sua coleção está focada no período até o século XIX, com arte essencialmente espanhola, veneziana e flamenca.
A visita guiada acaba tirando um pouco da espontaneidade de um "flanar" absorvendo a riqueza das obras do museu, mas foi importante para podermos ver as pinturas mais importantes da coleção no pouco tempo do qual disponíamos. Nos encontramos com as Meninas de Velasquez, com a perturbação da fase final de Goya e com a vanguarda antecipada do Jardim das Delícias.
Projeção de cinema
Para terminar, fomos a mais um lugar historicamente importante para o mundo cultural, a Residência de Estudantes onde no início do século XX moraram artistas como Dalí e Buñuel.
Nesse local especial, nos encontramos com o cineasta Gerardo Herrero, secretário geral da Federação Iberoamericana de Produtores Cinematográfico e Audiovisuais. Pareceu uma boa escolha para a programação, por sua presença na América Latina e pelo recente destaque por ter produzido o ganhador do Oscar "O segredo do seus olhos" (dir. José Campanella, 2010).
Foi uma pena não termos tido tempo de conversar com Herrero depois da exibição de seu mais recente longa-metragem, "Corredor Nocturno" (2009). O filme é baseado no livro homônimo do uruguaio Hugo Burel e foi rodado em Buenos Aires com elenco argentino e equipe espanhola.
Mas do brevíssimo momento de perguntas, foi interessante ver a sua visão de que a distribuição de filmes na Espanha está dominada pela produção de Hollywood (com muitíssimo marketing baseado no star system, como acontece também nos nossos países), em sua maioria com versões dubladas (resquícios da ditadura de Franco, semelhante à situação na Itália, Alemanha e Japão) e com fraca presença de exibições alternativas (cineclubes quase não existem, muito afetados pela facilidade de se baixar filmes na internet).
Apesar do cansaço que já acumulamos depois de uma agenda intensa desde que chegamos à Europa, vale todo esforço para aproveitar essas oportunidades de vivência cultural aqui em Madrid!